Divulgada na internet, a prática de diluir e injetar o medicamento por conta própria expõe pacientes a graves riscos de contaminação e infecções
Em paralelo ao uso de medicamentos injetáveis sem registro no Brasil, as redes sociais foram invadidas por ofertas de tirzepatida em pó, acompanhadas por tutoriais em que os próprios pacientes diluem e aplicam a substância em casa. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alerta, no entanto, que NÃO é seguro manipular e utilizar medicamentos que não foram produzidos em um ambiente estéril.
Voltada ao tratamento de diabetes tipo 2 e indicada em conjunto com a adoção de dieta de baixa caloria e aumento da atividade física para controle crônico do peso, incluindo perda e manutenção do peso em condições específicas, a tirzepatida é um medicamento injetável agonista do receptor de GLP-1.
No Brasil, a tirzepatida regulamentada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária é vendida em farmácias e também pode ser encontrada em farmácias de manipulação, desde que o paciente tenha indicação e a devida prescrição médica emitida por profissional competente.
O comércio ilegal desses medicamentos é alvo de ações policiais que contam com o apoio da Anvisa. Em 2026, a Agência também tem avaliado medidas para ampliar a proteção e segurança de medicamentos injetáveis de GLP-1, motivadas pelo crescimento irregular da sua manipulação, que pode afetar a saúde dos pacientes.
Mas enquanto as farmácias de manipulação seguem as determinações da Nota Técnica 200/2025/SEI/GIMED/GGFIS/DIRE4/ANVISA, que estabeleceu critérios rígidos para a importação e a manipulação de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) agonistas do receptor GLP-1, a venda ilegal do medicamento em pó é divulgada e realizada pela internet.
Perigos
Nas redes sociais, pessoas apresentam vídeos em que diluem o produto e fazem a aplicação sem qualquer cuidado sanitário. Como o medicamento não passou por nenhuma avaliação da Anvisa, é impossível comprovar o básico: se, de fato, o princípio ativo da substância está presente. Além disso, NÃO é possível comprovar sua concentração, nem a presença de impurezas e agentes contaminantes.
Quando uma substância é injetada no corpo, acessa o organismo diretamente e pode se transformar em uma infecção grave. A crença de que misturar um produto em pó com água ou outra solução e aplicá-lo com uma seringa torna essa mistura segura oferece sérios riscos à saúde, especialmente quando NÃO existe garantia de que o produto seja estéril.
O que é um produto estéril?
É aquele completamente livre de microrganismos, como bactérias, fungos e outros agentes capazes de causar infecções. Quando um pó é fabricado sem os controles rigorosos exigidos para medicamentos injetáveis, pode conter contaminantes invisíveis a olho nu. Mesmo que o produto pareça limpo e esteja em uma embalagem lacrada, isso NÃO significa que seja seguro.
Ao injetar um produto contaminado, microrganismos podem ser introduzidos diretamente no organismo, sem as barreiras naturais de proteção da pele. Isso pode resultar em infecções no local da aplicação, com dor, vermelhidão, inchaço e formação de abscessos.
Em casos mais graves, a infecção pode se espalhar pela corrente sanguínea, causando uma condição conhecida como sepse, uma emergência médica que pode levar à internação, falência de órgãos e até à morte.
Além dos microrganismos, partículas microscópicas presentes no pó também podem representar perigo. Elas podem causar inflamações, lesões nos tecidos e outras complicações quando introduzidas diretamente no corpo.
Contaminação no preparo
Outro problema é que, em ambientes domésticos, é muito difícil manter as condições necessárias para preparar uma solução realmente segura para injeção. O ar, as superfícies, os recipientes, a água utilizada e até mesmo os materiais de aplicação podem introduzir contaminação durante o processo.
Por essas razões, apenas produtos fabricados especificamente para uso injetável, sob rígidos controles de qualidade e esterilidade, devem ser administrados por essa via. Se houver qualquer dúvida sobre a segurança de um produto em pó ou sobre a forma correta de utilizá-lo, o mais seguro é procurar orientação de um médico ou de um farmacêutico antes de qualquer aplicação.
Medicamento em estudo
Além da tirzepatida em pó, muitas outras pessoas divulgam e indicam o uso de uma outra substância, o CBL-514. Com suposto potencial de redução da gordura localizada, o peptídeo sintético ainda está em fase 2 de estudo, ou seja: ainda NÃO tem registro nem autorização para venda.
Nessa fase, o produto ainda está sendo avaliado em ensaios clínicos, para gerar evidências científicas sobre sua segurança, eficácia e qualidade. Os resultados dessas pesquisas poderão subsidiar um futuro pedido de registro sanitário junto a agências reguladoras como a Anvisa. Enquanto permanece em investigação, o medicamento NÃO é considerado um produto autorizado para uso comercial.
Tomar um medicamento sem registro e ainda em fase de testes envolve riscos significativos, principalmente pela falta de evidências sólidas sobre sua segurança, eficácia e qualidade. Nessas condições, NÃO há garantias de que os benefícios esperados superem possíveis danos à saúde.
Fonte/Anvisa










