Gurus e xamãs criados por IA NÃO têm respaldo científico e podem prejudicar tratamentos de saúde

Ebooks apresentam supostos conhecimentos ancestrais e naturais que podem atrasar diagnósticos e agravar sintomas

A promessa parece perfeita: ebooks com receitas milagrosas para tratar e até curar problemas de saúde são vendidos por gurus até então desconhecidos e supostamente revelados ao mundo recentemente pelas redes sociais. Para aguçar a criatividade e atrair seguidores, as receitas são apresentadas nos livros digitais como segredos escondidos por décadas, que ninguém quer que você saiba. Mas o que NÃO te contam é que essas publicações não têm autoria humana e são vendidas por gurus, que são, na verdade, personagens fictícios criados por inteligência artificial (IA).

A estratégia para atrair seguidores e monetizar conteúdos nas redes sociais esconde um risco real à saúde. A falsa sensação de segurança, baseada na ideia de receitas caseiras ou naturais como solução, pode retardar a busca por acompanhamento médico, atrasar diagnósticos e agravar problemas de saúde.

A regulação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) diferencia alimentos e medicamentos. O que alimenta tem valor nutricional e é importante para a manutenção de uma boa saúde. Mas a oferta de alimentos com promessas de cura, tratamento ou recuperação da saúde pode induzir a população ao erro, já que essas são características dos medicamentos.

A ingestão de alimentos em excesso ou o consumo de um único ingrediente em grandes quantidades pode trazer problemas de saúde. Por isso, é preciso desconfiar das promessas de gurus que nem existem de verdade.

Comércio de ilusões  

Golpes envolvendo a venda de produtos irregulares e técnicas de marketing digital evoluíram e, nas redes sociais, perfis de gurus e sábios criados por IA têm se multiplicado. Eles compartilham soluções para saúde e bem-estar, apresentadas como inéditas, supostamente nunca reveladas ou baseadas em conhecimentos ancestrais e tradicionais.

Em alguns casos, para atrair a atenção de compradores, é adicionada alguma narrativa que conduz a história em torno de um livro digital para o campo sobrenatural, mágico ou espiritual. Esses conteúdos não revelam quem está por trás dos perfis na internet e dos livros, vendidos como manuais de saúde.

Em um desses perfis digitais, com mais de 600 mil seguidores, a protagonista é uma senhora indígena criada por IA, que compartilha receitas que prometem devolver a saúde de qualquer pessoa em sete dias. Para convencer as vítimas, são compartilhados supostos casos de sucesso de compradores anteriores: “as dores sumiram logo nos primeiros dias”, diz uma postagem em destaque, atribuída a uma suposta cliente.

Quando o leitor navega até uma página intermediária, entre se informar sobre o livro digital e tomar a decisão final de compra, começa a ser bombardeado por pop-ups que se abrem na tela do celular ou computador, alegando que pessoas muito famosas, como atores e cantores conhecidos e respeitados pela população, acabaram de realizar a compra do livro. Esse marketing digital induz as pessoas ao erro, para convencê-las a comprarem o ebook.

Em algumas das receitas do livro, a guru indígena criada por IA recomenda que as pessoas consumam cúrcuma por 30 dias seguidos para matar parasitas e vermes. Entretanto, NÃO existem evidências científicas baseadas em estudos com seres humanos que endossem a recomendação de ingestão de cúrcuma para o tratamento para verminoses.

Além disso, vale lembrar que em 2026 a Anvisa publicou o alerta de que suplementos alimentares e medicamentos à base de cúrcuma, com concentrações elevadas ou aumento da biodisponibilidade da curcumina, podem provocar danos ao fígado.

Dicas 

Obras audiovisuais não são reguladas pela Anvisa. No entanto, em casos de venda casada – quando o livro é vendido junto com um produto sujeito à vigilância sanitária -, pode caber autuação sanitária, a depender dos elementos concretos de cada caso. De toda forma, algumas dicas podem ajudar a não cair em golpes:

  • Observe se o perfil da pessoa que compartilha as orientações de saúde possui o símbolo de verificação da identidade por parte da rede social;
  • É um suplemento alimentar que vem associado a um ebook? Cuidado! Quadrilhas têm usado essa tática para vender produtos irregulares de forma disfarçada.

A crescente oferta de ebooks facilitou a disseminação de informações, mas também ampliou os desafios relacionados à confiabilidade dos conteúdos. Em virtude de características inerentes ao ambiente digital, como flexibilidade, simulação, reprodutibilidade e transmissibilidade, há um risco de que esses materiais sejam alterados, replicados e distribuídos em larga escala.

Diante desse cenário, é importante que o consumidor analise de forma criteriosa as fontes consultadas, avaliando sua autoria e procedência, para evitar o consumo e a propagação de dados falsos ou desatualizados.

Vale lembrar que algumas entidades divulgam informações úteis sobre como navegar de forma segura na internet e se prevenir de golpes. Exemplos são as publicações do Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (Cert.br), disponíveis aqui. O Centro é vinculado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil.

Agências de checagem também compartilham dicas para ajudar a identificar quando se trata de uma pessoa real ou de personagem criado por IA. É importante observar, por exemplo, a sincronização entre o movimento dos lábios e a transição pouco natural que pode existir entre as falas; a posição e qualidade visual dos objetos que compõem a imagem; se há um padrão de movimento das mãos; e se a voz soa um pouco travada ou robotizada.

Também é fundamental avaliar se os elementos visuais apresentam variações quando a suposta pessoa se movimenta, ou se eles ficam estáveis durante a cena. Outro sinal pode ser a inexistência de aparições dessa pessoa em eventos reais ou entrevistas.  Caso o conteúdo seja de profissional de saúde, não esqueça de verificar suas credenciais junto ao conselho profissional da categoria.

Se for um autor do qual você nunca ouviu falar, pesquise se há outras obras dessa pessoa já publicadas. Via de regra, as editoras possuem mecanismos para checar autoria, a possível ocorrência de plágio e outras questões legais.

Afinal, você confiaria num livro escrito por alguém que não existe? Se uma escolha de saúde é feita com base em recomendações de uma obra sem autor, quem se responsabiliza pela orientação dada? Nunca é demais lembrar: um problema de saúde precisa ser avaliado por profissional de saúde habilitado e qualificado para isso.

Desconfie de receitas caseiras, nunca reveladas, ou de promessas naturais. Natural NÃO é sinônimo de seguro!  Até mesmo as plantas medicinais podem ser danosas quando usadas por quem não possui conhecimento ou de forma indiscriminada, causando efeitos adversos, intoxicações e reações alérgicas.

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